O Turismo Está Mudando… E Os Turistas Também
Por Marcia Pavarini

Quando comecei a viajar, (e já faz tempo) registrar uma viagem exigia papel, caneta e disciplina. Ao longo dos anos, acumulei mais de cinco mil páginas de diários, onde anotei impressões, encontros, dificuldades e descobertas em centenas de destinos ao redor do mundo.

Já visitei 242 países, territórios e regiões autônomas segundo os critérios do Travelers’ Century Club, uma organização que adota uma forma de contagem diferente da utilizada pela geografia política tradicional.
Countries & Territories – Travelers’ Century Club

Nesse sistema, não apenas países soberanos são considerados. Alguns territórios remotos, ilhas distantes ou regiões com características geográficas e culturais muito próprias também entram na lista. O Havaí é um exemplo emblemático. Embora seja um estado dos Estados Unidos, sua localização isolada no Pacífico e sua identidade singular fazem com que seja contabilizado separadamente pelo clube.

Essa forma de contagem talvez reflita melhor uma realidade que aprendi após décadas viajando: nem sempre as fronteiras políticas são as que mais influenciam a experiência do viajante. Muitas vezes, atravessar um oceano ou chegar a uma ilha remota representa uma mudança cultural muito maior do que cruzar a fronteira entre dois países vizinhos.

Eu pertenço a uma geração que viu o turismo atravessar três grandes transformações. Comecei a viajar na época dos mapas de papel, dos guias impressos, dos cadernos de anotações, das passagens emitidas em papel, das câmeras analógicas e de tantas outras pequenas rotinas que acompanhavam cada viagem. Depois vieram a internet e os mecanismos de busca. Hoje, chegamos à era da inteligência artificial.


Em poucas décadas, a forma de planejar, registrar, pesquisar, compartilhar, mudou de tal maneira que seria difícil imaginar, na época em que fiz minhas primeiras malas, ainda na juventude.

Hoje, muitas vezes encontro mais rapidamente uma sugestão, ou uma informação sobre viagens, em uma ferramenta digital do que procurando entre meus cadernos guardados nos armários de casa.

É uma mudança extraordinária. O acesso ao conhecimento nunca foi tão fácil. No entanto, quando quero recordar como me senti ao chegar a um lugar remoto, enfrentar uma tempestade no mar (como uma onda de 12 metros no mar antártico) ou contemplar uma paisagem pela primeira vez, continuo recorrendo aos meus velhos diários. Eles guardam algo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir completamente: a emoção do instante vivido.
1. A tecnologia mudou a forma de viajar.

Houve uma época em que planejar uma viagem levava semanas de pesquisa. Consultávamos guias impressos, mapas de papel e agentes de viagem e, muitas vezes, partíamos sem saber ao certo o que encontraríamos pelo caminho.
Hoje, com alguns toques na tela do celular, é possível reservar hotéis, comprar passagens, consultar horários de transporte, traduzir idiomas e encontrar restaurantes a poucos metros de distância.
A tecnologia tornou as viagens mais simples e acessíveis. Em compensação, parte do mistério desapareceu. Muitos viajantes chegam ao destino já conhecendo cada ângulo dos principais pontos turísticos, vistos centenas de vezes em vídeos e redes sociais.
2. O turista de hoje mudou: agora viaja conectado

Se o turismo mudou, o turista também mudou. Não necessariamente em seus sonhos ou motivações, mas na maneira de viajar.
Quando comecei a explorar o mundo, grande parte das decisões e preparações, precisavam ser tomadas meses antes da partida. Reservas, roteiros, mapas, vistos e informações eram obtidos com antecedência, e qualquer imprevisto exigia criatividade e adaptação.
Hoje, o viajante carrega no bolso as ferramentas que permitem alterar reservas, consultar mapas, traduzir idiomas, verificar condições climáticas, comparar preços, comprar passagens, e buscar qualquer informação em segundos.
A tecnologia transformou o turista em um viajante permanentemente conectado. O que antes exigia meses de planejamento e paciência, agora pode ser resolvido quase instantaneamente, muitas vezes enquanto se caminha pelas ruas de uma cidade desconhecida.
3. O turismo de massa começa a mostrar seus limites

Alguns dos destinos mais populares do mundo, enfrentam problemas causados pelo excesso de visitantes. Moradores reclamam do aumento do custo de vida, da superlotação, e da perda de características locais.
Como consequência, muitos viajantes passaram a procurar alternativas. Pequenas cidades, regiões remotas e os destinos menos conhecidos ganham espaço nos roteiros de quem deseja fugir das multidões.
4. Segurança e economia passaram a influenciar mais as escolhas

Guerras, tensões políticas, crises econômicas e o aumento dos custos das viagens têm levado muitas pessoas a repensar seus planos.
Destinos considerados seguros ganham preferência, enquanto roteiros mais complexos ou caros acabam sendo adiados.
Viajar continua sendo um sonho para muita gente, mas hoje as decisões costumam ser tomadas com mais cautela e planejamento.
5. A busca por natureza, silêncio e sustentabilidade

Outra mudança que venho observando, é o crescente interesse por destinos onde a principal atração não é um monumento, um museu ou uma grande cidade, mas a própria natureza.
Paralelamente ao crescimento do turismo ecológico, muitos viajantes passaram a valorizar lugares remotos, paisagens preservadas e experiências que oferecem algo cada vez mais raro no mundo moderno: a natureza preservada.
Em diversas regiões do planeta, o turismo deixou de ser apenas uma oportunidade de conhecer novos lugares e passou a representar também uma forma de reconexão com a natureza. Trilhas, parques nacionais, áreas protegidas e destinos pouco povoados atraem visitantes que buscam desacelerar e se afastar, ainda que temporariamente, do ritmo intenso da vida cotidiana.
Essa tendência também reflete uma preocupação crescente com a preservação ambiental. Muitos viajantes procuram compreender melhor o impacto de suas escolhas, valorizando iniciativas de turismo sustentável e destinos comprometidos com a conservação de seus patrimônios naturais.
Conclusão
O turismo continua mudando e provavelmente continuará mudando nas próximas décadas. Novas tecnologias surgirão, alguns destinos ganharão popularidade enquanto outros desaparecerão dos roteiros.
Mas existe algo que permanece igual desde que os primeiros viajantes decidiram explorar o mundo: a curiosidade.
Seja em uma grande capital ou em uma pequena ilha perdida no Atlântico Norte, continuamos viajando pelo mesmo motivo: para descobrir lugares novos e, muitas vezes, descobrir algo novo sobre nós mesmos.
Depois de visitar grandes cidades, regiões remotas e alguns dos lugares mais isolados do planeta, percebo que muitos dos momentos mais marcantes das minhas viagens não foram acompanhados por multidões ou filas. Foram vividos diante de paisagens onde o silêncio fazia parte da experiência.

